sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Obesidade I



Os "gordinhos" de Ontem e de Hoje



A arte é, sem dúvida, um reflexo sociológico de determinada região, num determinado tempo, em que se perpetua toda uma tendência de vida quanto a seus hábitos e costumes. 
A pintura e a escultura, que têm a possibilidade de antropomofisar as idéias quanto ao corpo e os seus valores, nos contam com detalhes determinados aspectos do Homem em sociedade, com a mesma força e poesia do mais capaz dos cronistas de época.

Este aspecto da arte nos vem à mente quando visitamos as exposições de quadros pintados pelos grandes mestres da pintura, expostos juntos no Louvre, no Prado, ou no MAM, quando observamos a nítida tendência, desde o século XV até o final do século XIX, aproximadamente, para o volume do corpo das figuras humanas, principalmente das mulheres.

A noção de beleza feminina, em qualquer de suas manifestações – quer lasciva ou santificada – tinha no arredondamento de suas formas o seu ápice e a preferência da época. Mulher magra era mulher doente, ou carente, ou ambas; enquanto que as “fartas de carne” representavam volúpia ou saúde, e de preferência as duas, na mesma mulher.

No homem, a tendência seguia um mesmo simbolismo, de luxúria e alegria com saúde, além da imagem do poder, da riqueza e do mando sobre as pessoas, inclusive as mulheres.

Esse detalhe é para os dias de hoje diametralmente oposto aos conceitos tanto de beleza quanto de saúde, em que a gordura – chamada agora de OBESIDADE – e a vida saudável não são companheiras. Muito pelo contrário.

Os grandes mestres pintaram quadros memoráveis a respeito, como em 1497 “O Parnaso”, de Mantegna, em 1646 “A cozinha dos anjos”, de Esteban Murilo, em 1800 a “Família Real”, de Goya, ou em 1863 o “Banho Turco”, de Ingres, dentre tantos outros que as formas arredondadas das mulheres, anônimas ou de personagens conhecidas, representavam a estética da beleza. Fundamentalmente da beleza normal. Aceita por todos.



 

Paradoxalmente, sabemos hoje que a obesidade – as formas arredondadas das quais se ufanavam aquelas mulheres – é um importante fator de risco para uma série de patologias que hoje conhecemos e podemos identificar “causa-e-efeito” com a obesidade. Há três ou quatro séculos era apenas considerado como padrão de beleza, e como dizem os poetas, “... beleza é fundamental...”.

Além do mais, veremos no decorrer de nossas conversas que a retenção de gordura no corpo humano, principalmente nas mulheres, representava simbolicamente, como ainda hoje, uma tentativa de retenção mais ampla principalmente de afeto, valoração e, o que menos existia, respeito no relacionamento com os homens, quer fossem maridos ou amantes.

Hoje, cada vez com mais frequência, ouve-se falar em regimes que emagrecem e ginásticas que mantêm a forma. A inspiração para tais regimes e ginásticas é procurada nos métodos suecos ou canadenses, no sistema dos astronautas, na macrobiótica, no “coma e emagreça” e em muitos outros mais, tentando-se a todo custo entrar para o rol dos magros.

Toda mulher suspira por uma silhueta de manequim, e não há sacrifício que não esteja disposta a fazer para enquadrarem-se nos atuais padrões de beleza.

Como vimos, houve época em que pintores e escultores expressavam a sua arte reproduzindo figuras opulentas de carnes fartas e contornos bem definidos, e as magras, coitadas, tinham que disfarçar tão constrangedora situação lançando mão dos mais diferentes artifícios. Os postiços surgiram triunfantes e preencheram prodigamente as deficiências anatômicas.

Mas hoje os magros estão na moda. Não só por questão de estética, mas, também, porque se sabe que o excesso de peso e a boa saúde são duas situações incompatíveis.

Dentro desses conceitos, entre “moda e saúde”, sem dúvida nenhuma que, lamentavelmente, a moda é mandatória à maioria das pessoas, e orienta mais uma vez principalmente as mulheres no que diz respeito ao seu peso e às suas formas.

A magreza exagerada e, às vezes, doentia e anorética, é representada por algumas modelos que exibem nas passarelas de desfiles não só a elegância de seus vestidos, mas, também, o desrespeito pelos seus corpos e pela Vida, relegados a um plano inferior à “demonstração de afeto” dos aplausos.

A imagem, mesmo virtual, é mais poderosa do que o objeto, apesar deste ser o real. A personagem continua a ser mais importante do que o ator.

Até quando? 



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