quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A Lenda das Orquídeas



Em uma cidade chinesa, existia uma jovem famosa chamada Hoan Lan, que divertia-se, em fazer penar suas paixões aos seus numerosos adoradores.

Por um sorriso, o jovem Kien Fu, tinha cinzelado o ouro mais fino e trabalhado com infinita paciência as mais lindas peças de jade.

A ingrata, após se adornar com todos os presentes do nobre apaixonado, riu-se dele e o desprezou. Kien Fu, desesperado, acabou com a própria vida atirando-se ao Rio Vermelho.

O pintor Nguyen Ba conseguiu obter cores desconhecidas para pintar o retrato de sua amada. Esta, porém, depois de ter exibido para satisfação de sua vaidade a magnífica pintura, desprezou o artista que desapareceu para sempre no mistério das selvas...

Mai Da, apaixonado também, quis patentear seu amor à jovem volúvel, inventando um perfume delicioso somente digno dos anjos. A ingrata perfumou-se e mandou pôr na rua o seu adorador que, nada mais aspirando na vida, se envenenou...

Cung Le levou sua perseverança a incrustar nácar numa pulseira de ébano, que foi recebida pela ingrata. O pobre endoideceu...

Mas, o poderoso Deus das cinco flechas, Deus que a tudo via e tudo ordenava, julgou que era o momento de castigar tanta maldade, fazendo a jovem volúvel apaixonar-se pelo formoso Mun Cay.

Desde então, Hoan Lan sonhava no seu leito de nácar e sedas bordadas com seu adorado, cujo nome esvoaçava sobre seus lábios de carmim, como uma borboleta sobre a rosa.

Ao despertar, descia à piscina, banhava-se e adornava-se com suas jóias mais preciosas, para ver passar seu querido Mun Cay, que apenas se dignava a levantar os olhos para ela.

Nunca tinha considerado a formosa jovem, nem se interessado pela fama de beleza que tinha ardido à sua volta.

Os dias iam passando e Mun Cay não saía de sua indiferença cruel...

Um dia, Hoan Lan decidiu sair-lhe ao encontro e declarar-lhe paixão...

"Não me interessas, rapariga!" - disse ele. "És como todas as outras. Para mim não vales nada! Se fosses como aquela que eu amo... Esta sim, é uma deusa! Tu, mísera Hoan Lan, com toda tua vaidade, não serves nem para atar-lhe as fitas das sandálias!". E, com um sorriso desdenhoso, afastou-se...

Em meio de seu desespero, Hoan Lan lembrou-se do deus todo poderoso que vivia na montanha de Tan Vien. Talvez ele pudesse lhe valer...

Apesar da noite escura e chuvosa, a jovem dirigiu-se ao monte sagrado, onde residia sua última esperança.

A entrada do templo subterrâneo era guardada por um terrível dragão.

Suplicou-lhe a concessão de entrada e, ao cabo de muitos pedidos, conseguiu penetrar num extenso corredor, por entre serpentes horríveis que lhe babujavam os pés nus.

Quando chegou junto ao trono de ônix do poderoso gênio, prostrou-se e implorou:

"Cura-me, que sofro horrivelmente! Amo Mun Cay que me despreza!"

"É justo o castigo" - respondeu o deus - "pelo que tens feito aos teus apaixonados".

"Oh! Todo poderoso! Tem dó de mim! Concede o amor de meu querido Mun Cay! Sabes bem que não posso viver sem ele!"

"Vai-te daqui!" - rugiu o gênio - nada conseguirás! O castigo que pesa sobre ti foi imposto pelo Kama que tudo sabe! É justo que sofras! Saia de meu templo!"

À saída, Hoan Lan encontrou-se com uma bruxa de pés de cabra!

"Formosa jovem" - disse-lhe a bruxa - "sei que és muito desgraçada. Queres vingar-se de Mun Cay? Vende-me a tua alma e juro-te que, embora Mun Cay não te ame, não amará à outra mulher!"

Hoan Lan voltou à sua casa que lhe parecia um cárcere.

Saía pelos bosques para distrair sua pena, mas sempre em vão. . .

Um dia, vendo ao longe seu adorado Mun Cay, correu para ele e quando se preparava para abraçá-lo, o jovem foi transformado numa árvore de ébano!

Neste momento apareceu a bruxa que, soltando uma gargalhada, lhe disse:

"Desta maneira, o teu amado não pode ser nunca de outra mulher!"

"Bruxa infame!" - exclamou chorando, a pobre Hoan Lan - "o que fizeste a meu adorado? Devolva-me ou mata-me!"

"Contratos são contratos!" - replicou a bruxa, rindo satanicamente.

"Cumpri o que prometi! Mun Cay, embora nunca te ame, não amará a outra mulher! Prometi e cumpri! A tua alma me pertence!"

Hoan Lan, abraçada ao pé da árvore, clamava desesperadamente a seu tronco imóvel...

"Perdoa-me Mun Cay! Tem para mim, uma só palavra de amor, de indulgência e compaixão! Não vês como me arrasto aos seus pés? Como te abraço? Como sofro?"

Mas a árvore nada respondia. . .

A jovem ali ficou por muito tempo.

Uma manhã, passou por ali um gênio, que se compadeceu de sua dor. Acercando-se dela, pôs-lhe um dedo na testa e disse:

"Mulher, procedeste muito mal! Foste volúvel até a crueldade e ingrata até a malvadez! Procedeste muito mal! Mas a tua dor purificou a tua alma!

Estás perdoada e vais deixar de sofrer. Antes que a bruxa venha buscar a tua alma, vou transformar-te numa flor. Ficarás sendo, no entanto, uma flor esquisita e requintada, que dê a impressão do que foi a tua vida maldosa!

Quem vir as tuas pétalas, facilmente adivinhará o que foi o teu espírito, caprichoso, volúvel, cruel e a tua preocupação constante pela elegância...

Concedo-te um bem: não te separarás do bem que adoras e viverás da sua seiva, parasita do teu amado!"

Assim falou o poderoso gênio e enquanto falava, a túnica rósea de Hoan Lan ia empalidecendo e tornando-se de uma delicada cor lilás...

Os olhos da jovem brilharam como pontos de ouro e as suas carnes tomaram a tonalidade do nácar.

Os seus formosos braços enrolaram-se na árvore na derradeira súplica.

"E assim, apareceu a primeira orquídea no mundo..."

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