quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A lenda de Kokopelli



Era uma noite de outono, e nós estávamos sentados ao redor de uma fogueira, no alto das montanhas na Mesa Verde, quando eu vi pela primeira vez a figura de Kokopelli se aproximando da nossa aldeia.

Ele tinha uma corcunda avantajada e vinha tocando sua flauta numa completa harmonia com o som das montanhas.

Notamos imediatamente naquela figura o Deus Kokopelli, com sua flauta, corcunda e com suas características fálicas pronunciadas.

Sua flauta era confeccionada em osso, e ele a tocava pelo nariz. Segundo os anciões, as narinas possuíam poderes mágicos, pois o espírito entrava e saia do corpo por elas.

As estórias que eu escutava sobre nosso visitante era que ele era um brioso Tolteca que chegou a Aztlán vindo do coração do México. Aztlán foi o local onde originou a poderosa Nação Asteca, antes que ela construísse sua capital no meio de um lago, numa ilha conhecida hoje em dia como Cidade do México. A fronteira norte de Aztlán ficava ao sul do Colorado e cobria todo o vale do Rio Grande no Novo México. A fronteira norte de Aztlán era povoada pelas pacificas Nações dos Pueblos.

Nós, os Pueblos, éramos fazendeiros e habitávamos as encostas das montanhas.

Dependíamos dos Seres-Trovão e do Arco-Íris Rodopiante para alimentar as Três Irmãs (Milho, Abóbora e Feijão) que garantiam a nossa sobrevivência.

A música, suave e inspiradora, ecoava pela parede do desfiladeiro. A Mesa Verde estava repleta de habitação no alto da encosta, as fogueiras brilhantes ardiam, e todo o Povo olhava, maravilhado, observando Kokopelli transformar a música encantada de sua flauta de nariz numa poção milagrosa que alimentava os corações dos jovens e velhos.

Kokopelli não tinha corcunda, pois sua corcunda estava sentada ao seu lado e devia ser a sua sacola de objetos sagrados e de cura que ele havia trazido para negociar.

Sua flauta parecia brilhar à luz da fogueira, e ele empregava os reflexos do fogo e o som de sua música para hipnotizar todo aquele público.

Havíamos tido um ano de seca e havia pouca esperança que voltasse a chover.

As penas do cocar de Kokopelli eram brilhantes e vermelhas de arara, que davam a ilusão de que o corpo se banhava na Chama Eterna da paixão e da criatividade. O Fogo da fertilidade que coroava sua cabeça também se irradiava de seu corpo enquanto se inclinava oscilante diante do fogo tribal.

Ao terminar de tocar sua flauta, embrulhou-a como se fosse uma criança num pano brilhante e ofereceu à Grande Nação das Estrelas. Suas palavras alcançaram os recantos mais distantes do povoado.

- Esta flauta leva a música das Estrelas à Grande Mãe Terra, e convoca os Seres-Trovão a virem fazer amor com ela - gritou Kokopelli. - Esta união dará ao Povo uma criança que um dia conduzirá de volta às estrelas, através da Terra interior da qual todos vieram.

Uma lufada do ar gelado da montanha passou pelo meu corpo, subiu o desfiladeiro e foi atiçar as brasas do fogo tribal, causando um redemoinho que explodiu, enchendo o céu noturno de fagulhas que lembravam as estrelas. Os murmúrios de admiração saídos da boca do Povo ecoaram pela noite escura.

Subitamente, a luz que os Seres-Trovão lançaram foi o suficiente para que todos vissem as massas do Povo Nuvem que já haviam se agrupado nos céus, em resposta ao chamado de Kokopelli.

Uma vez mais o Povo gritou, espantado com a mágica realizada por esse Deus, Kokopelli. Até mesmo os bebês, que já estavam dormindo, acordaram para apreciar o espetáculo mágico de Kokopelli.

Certamente a chuva há muito esperada viria para alimentar as Três Irmãs (Milho, Abóbora e Feijão), e o Povo conseguiria sobreviver.

Kokopelli recomendou que todos apanhassem seus potes de barro e recolhessem a água da chuva para usar futuramente. Os Trovejadores gritavam que a chuva ia começar.

Os Bastões de Fogo criaram um grande jogo de luzes antes que Trovão Retumbante quebrasse o silêncio da noite. Além deste som só se ouvia a corrida dos pés metidos nas sandálias de fibra de iúca subindo e descendo escadas em busca dos potes. Só uma jovem ficou parada, em pé, perto da praça principal. Ela olhava para cima e observava, maravilhada, os relâmpagos que iluminavam o céu noturno, enquanto os outros, a seu redor, não paravam de correr de um lado para o outro.

Kokopelli olhou seu rosto tão maravilhado, bonito e inocente, e aproximou-se dela, ainda segurando a flauta como se fosse uma criança. A jovem demonstrava tanta serenidade que chamou a atenção de Kokopelli.

- Por que não foi buscar seu potes? - perguntou ele.

- Já estão lá em cima. - respondeu ela.

Kokopelli perguntou o seu nome, e ela respondeu:

- Chamam-me Flor da Neve do Clã de Inverno do Milho Branco.

- Por que é que seus potes já estão lá em cima, Flor de Neve? - perguntou ele.

- Porque sua flauta me chamou assim que você começou a subir o desfiladeiro e me revelou que você traria a chuva. - respondeu ela.

Kokopelli ficou intrigado. Nisto, ela olhou para ele e sorriu. Kokopelli lhe sorriu de volta. Tinha acabado de entender a sua mensagem.

- Então é você! - exclamou ele.

O Xamã do Clã da Águia começou a convocar o Povo para uma oração de Graças.

Neste mesmo instante, os primeiros seres do Povo da Chuva começaram a tocar os seios da Mãe Terra.

Kokopelli pegou Flor da Neve pela mão e conduziu-a suavemente até a Fogueira.

Todos os olhares do Povo observavam o casal, que se encaminhava para o centro da aldeia.

Terminada a oração, Kokopelli colocou sua flauta nos braços de Flor da Neve, como se fosse um bebê. Este gesto significava que aquela mulher partilharia de sua música e de sua semente dali por diante.

A magia pairava no ar, e o filho desta união usaria a Magia do Corvo para ajudar o Povo a redescobrir o seu caminho de volto às estrelas.

Segundo a lenda, os Pueblos vieram abrindo caminho do mundo interior, logo após a Criação. Enquanto isso, os espíritos de seus Ancestrais retornavam ao mundo interno, até que soasse a hora de caminhar novamente pela Terra.

Kokopelli revelou ao Povo que houve um momento antes da Criação em que cada pessoa era uma fagulha da Chama Eterna do Grande Espírito, que havia caído sobre a Terra para semear a Mãe com os seus pensamentos, ideias e ações férteis.

Kokopelli também revelou que todos se tornariam Vagalumes na Grande Nação do Céu no dia em que os sangues Tolteca e Pueblo se unissem em um só sangue.

Contam os Astecas que nove meses depois Flor da Neve deu à luz um menino, que se tornou um grande líder espiritual do Clã da Águia. A sua Magia de Cura consistia em unir o carinho de sua mãe ao poder de Fogo do seu pai.

Aquele local, chamado de Mesa Verde, já está abandonado há alguns séculos. Portanto uma pergunta ficou pairando no ar: teria este Povo deixado a Mãe Terra para ir viver na Grande Nação das Estrelas? Se isto for verdade, a fertilidade e a abundância de Kokopelli continuam brilhando, até hoje, em nosso mundo, durante todas as noites do ano.

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