domingo, 26 de fevereiro de 2012

O barro desobediente



Houve um oleiro que chegou ao pátio de serviço e reparou com alegria um pequeno bloco de barro. Contemplou-o, enlevando, em face da cor viva com que se apresentava e falou:

                    — Vamos! Farei de ti um delicado pote de laboratório. O analista alegrar-se-á com teu concurso valioso.

Imediatamente surpreendido, porém, notou que o barro retrucava:

                    — Oh! Não, não quero! Eu, num laboratório, tolerando precipitações químicas? Por favor, não me toques para semelhante fim!

O oleiro, espantado, considerou:

                   — Desejo dar-te forma por amor, não por ódio. Sofrerás o calor do forno para que te faças belo e útil... Entretanto, porque te recusas ao que proponho, transformar-te-ei numa caprichosa ânfora destinada a depósito de perfumes.

                  — Oh! nunca! nunca!...— exclamou o barro — isto não! Estaria exposto ao prazer dos inconscientes. Não estou inclinado a suportar essências, através de peregrinações pelos móveis de luxo.

O dono do serviço meditou muito na desobediência da lama orgulhosa, mas, entendendo que tudo devia fazer por não trair a confiança do Céu, ponderou:

                   — Bem, converter-te-ei, então, num prato honrado e robusto. Comparecerás à mesa de meu lar. Ficarás conosco e serás companheiro de meus filhinhos.

                  — Jamais! — bradou o barro, na indisciplina — isto seria pesada humilhação... Transportar arroz cozido e aguentar caldos gordurosos na face? assistir, inerte, às cenas de glutonaria em tua casa? Não, não me submetas!...

O trabalhador dedicado perdoou-lhe a ofensa e acrescentou:

                  — Modificaremos o programa ainda uma vez. Serás um vaso amigo, em que a límpida água repouse. Ajudarás os sedentos que se aproximarem de ti. Muita gente abençoar-te-á a cooperação. Despertarás o contentamento e a gratidão nas criaturas!...

                  — Não, não! — protestou a argila — não quero! Seria condenar-me a tempo indefinido nas cantoneiras poeirentas ou nas salas escuras de pessoas desclassificadas. Por favor, poupa-me! poupa-me!..

O oleiro cuidadoso considerou, preocupado:

                  — Que será de ti quando conduzirem ao forno? Não passarás de matéria endurecida e informe, sem qualquer utilidade ou beleza. Sem sacrifício e sem disciplina, ninguém se eleva aos planos da vida superior.

O barro, todavia, recusou a advertência, bradando:

                 — Não aceito sacrifício, nem disciplina...

Decorrido algum tempo, a lama vaidosa foi retirada e — ó surpresa! —não era pote de laboratório, nem vaso para água e, sim, feio pedaço de terra requeimada e morta, sem qualquer significado, sendo imediatamente atirada ao pântano.

Assim acontece a muitas criaturas no mundo. Revoltam-se contra a vontade soberana do Senhor que as convida ao trabalho de aperfeiçoamento, mas, depois de levadas pela experiência ao forno da morte, se transformam em verdadeiros fantasmas de desilusão e sofrimento, necessitando de longo tempo para retornarem às bênçãos da vida mais nobre.

Francisco Cândido Xavier
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