segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Do desejo ao projeto: a construção da felicidade


Aristóteles, entre todos os filósofos, talvez tenha sido aquele que mais influenciou o pensamento ocidental, estando presente até hoje em nossa forma de compreender e de viver nossas vidas. Segundo ele o homem é definido como um ser teleológico, ou seja, cuja existência aponta para um fim: a felicidade, entendida como o bem maior ou bem supremo.

Não caberia neste curto artigo uma análise profunda do que viria a ser felicidade, haja vista a multiplicidade de tentativas de defini-la ao longo de toda história da humanidade, e que ainda se encontra em aberto. Mas nos propomos a uma singela reflexão sobre as estratégias que adotamos, ou melhor dizendo, como agimos e reagimos, na busca dessa “tal felicidade”.

Entendemos que a princípio surge o desejo de algo, geralmente externo a nós ou que não faça parte ainda de nossa essência, que uma vez alcançado nos tornará felizes. Do desejo que persiste e se fortalece nasce o sonho, cuja a simples menção nos faz sentir por antecipação o gozo (mesmo que fugaz) de sua concretização.

Mas o sonho, por si só revela-se uma armadilha para o sonhador: em sua atemporalidade, visto não ter “prazo de validade”, pode persistir em sua forma idealizada “ad eternum”, sem jamais estabelecer-se enquanto realidade objetiva. É então que, a partir da vontade, o homem transmuta o sonho em projeto, estabelecendo metas, objetivos, prazos, considerando os contextos em que se situa, seus recursos, limitações, desafios e oportunidades. E através do exercício da vontade o homem se descobre como o “próprio projeto” (do latim projectu, particípio passado do verbo projecere, que significa lançar para diante…), ou nas palavras de Aristóteles o “ser teleológico”.

Uma vez definido o projeto (entre tantos outros que abraçaremos ao longo de nossas vidas) passamos a viver a expectativa da concretização dos nossos desejos. O ser humano, através de sua capacidade criativa, sua imaginação e principalmente sua fé, projeta-se no futuro e vê o resultado do seu trabalho, vinculando-se a este, perseguindo a partir do presente sua conclusão.

Impactados, porém, com a ideia do todo a ser atingido, muitas vezes deixa-se dominar pela angústia e a insegurança quanto a realização de seu intento, desconsiderando o fato de que qualquer objetivo alcançado sempre será o resultado de pequenas parcelas somadas no tempo.

Por meio de seus sentidos físicos registra o percurso realizado, que o transporta do presente ao futuro, como que num veículo, que chamaremos de “agora”, transformando cada instante numa placa de estrada que “passa por nós”, sendo observada pelos nossos espelhos retrovisores, nossas recordações. Embora saibamos, na maioria das vezes, a distância a percorrer, o quanto falta para chegarmos ao nosso destino, vemos apenas alguns “metros” a nossa frente, que estarão diretamente sob nosso controle e sobre os quais realmente poderemos atuar, ou seja: o intervalo na estrada da vida que chamamos “presente”.

Se o futuro, sonhado ou projetado, se revela ainda como mera possibilidade (por mais metódico que sejamos em nossos planos, por mais previsível que possa ser em razão da repetição do passado), é no presente que reside o campo de ação consciente, o exercício da escolha. A liberdade do agir, que determinará resultados, ou se preferirmos o “feedback” da vida, se impõe a cada momento, exigindo decisão diante dos pequenos fatos, que geralmente são vividos de forma quase automática, de modo reativo e inconsciente.

E diante da obra de toda uma vida por viver, na perspectiva dos anos a percorrer, nos tornamos prisioneiros da ansiedade, vivendo num futuro de “apreensões” ou reféns de um passado sobre o qual não nos resta o que fazer, desconectados da realidade em que nos situamos agora.

Penso que podemos, ou melhor, devemos resgatar nossa relação com as pequenas coisas, pequenos gestos e ações, que nos integrem ao mundo no único momento que existe realmente: o agora. Esta pequena fração do tempo do qual nenhum futuro escapa, tornando-o passado, mas que transmuta em realidade cada sonho, cada projeto, por mais grandioso que seja…

O mais suntuoso castelo só tornou-se o que é a partir de cada pedra que o compõe; a mais significativa das vidas consolidou-se através de cada minuto vivido; um livro, uma obra de arte, nossa própria existência, revela-se sempre como o conjunto de pequenas partes que vão se unindo ao longo do tempo. Portanto, para atingirmos a felicidade ou qualquer meta que tenhamos em mente, devemos nos OCUPAR das pequenas coisas, dos pequenos gestos com a mesma INTENSIDADE com que nos PREOCUPAMOS com o resultado final… Pois, nossa história e tudo o que nela realizamos é composto de “pequenas coisas” e sucessíveis “agoras”…

Paz sempre…

Wladimir Baptista

fonte:
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