sexta-feira, 2 de maio de 2014

O caminho do meio



Eu sempre acreditei que a perfeição (que é algo que todos acabamos por buscar) mora no meio-termo. O equilíbrio é atingido quando alcançamos o meio. Andar de bicicleta é assim, sobretudo quando estamos aprendendo: se a bicicleta se inclina para um lado, jogamos nosso peso para o lado oposto, e recuperamos nosso eixo. Com a prática, esse jogo de pesos e contrapesos se torna automático, mas esse jogo de compensação continua existindo. Dessa forma, realizamos um feito quase impossível: evitar que a Lei da Gravidade nos derrube ao chão.

A dimensão em que vivemos é regida pela dualidade: todos os organismos do planeta são conduzidos por ela. Todos, sem exceção, precisam tanto do repouso como da atividade para modularem suas funções vitais. Suprimindo um aspecto, cria-se o desequilíbrio. Salvo os organismos que usam a divisão celular como forma de reprodução (e mesmo estes apresentam a dualidade, já que duplicam suas estruturas para a divisão), todos os outros seres precisam de uma parte feminina e uma masculina para a perpetuação da espécie. E mesmo o clima é afetado pela dualidade, e o excesso de um causa danos ao equilíbrio. Temos frio e calor, chuva e seca, alternando-se perpetuamente.
                
Sendo a natureza profundamente orquestrada pela dualidade, por que seria diferente com nossa vida psíquica e energética? Somos ensinados desde a infância o que é bom e o que é ruim. Aprendemos que altruísmo é uma virtude, e egoísmo é um defeito. Mas seria saudável dizermos sim o tempo todo, doarmos tudo o que temos, negligenciando o próprio bem-estar? E, por outro lado, seria tão nocivo olhar de vez em quando para nós mesmos, para nossas necessidades e desejos? Seria o amor-próprio uma característica vergonhosa? Não estou dizendo que devemos focar em nosso umbigo o tempo todo. Estou dizendo que o caminho do meio é o mais saudável: equilibrando o dar e o reter.

Aprendemos também que revidar é feio, e aguentar calado é uma qualidade. Mas me responda com sinceridade: você permitiria que uma pessoa que você ama fosse ferida na sua frente, e permaneceria quieto e passivo? Não? Mas se você faria isso por alguém que você ama, por que deixaria de fazer isso por você mesmo? Não estou fazendo uma apologia à agressão, mas dizendo que você não só pode como deve preservar seu espaço, e dizer não à todas as formas de abuso e desrespeito, seja com os outros ou com você mesmo. Lembre-se: caminho do meio. Não ataque de forma gratuita, mas defenda-se sempre que necessário. Se te incomoda tomar uma atitude em prol da própria integridade, pense que você estará atuando para trazer equilíbrio ao mundo, já que pessoas se tornam tiranas pela falta de alguém que imponha limites, que diga não.

Sempre nos disseram que a raiva é nociva, e expressar raiva é uma fraqueza. Mas a raiva, se bem direcionada, se torna um combustível. Pense da seguinte maneira: você está sendo tratado de forma injusta, por exemplo, no seu trabalho. Você tem três alternativas: lutar contra, sair dessa situação (trocando de emprego), ou suportar (leia-se empurrar com a barriga). Caso você escolha a última alternativa, terá que fazer um esforço imenso para se tornar imune. E se não conseguir, correrá um sério risco de ficar doente. Mas caso escolha uma das duas primeiras, você estará direcionando sua raiva e sua frustração de forma a solucionar sua situação, tirando desses sentimentos a força necessária para dar esse passo. Veja bem, não estou dizendo nem que você deve sair descarregando sua raiva, e nem dizendo que fugir de uma situação ou tentar modificá-la é sempre a melhor alternativa. Muitas vezes passamos por situações que se repetem, cuja função é nos ensinar algo que ainda não aprendemos, e enquanto não aprendermos, essas situações continuarão acontecendo. Mas existem situações que causam sofrimento e incômodo, e servem para nos tirar de nossa zona de conforto, levando-nos a abraçar novos horizontes, ou ainda para nos ajudar a desenvolver características até então latentes. Discernir se é o caso de lutar, ou se é necessário ficar e aprender, exige grande sabedoria. Mas eu tenho um palpite que a resposta estará em achar o ponto de equilíbrio.

Eu acredito firmemente que os padecimentos psíquicos surgem no momento em que o equilíbrio cessa. Porém, achar o caminho do meio não é tarefa fácil, nem se consegue isso de forma direta. Observe o movimento de um pêndulo. Se você puxá-lo para um lado, e soltar, ele não irá parar quando chegar no meio. Irá até o lado oposto. Quando ele atingir a altura máxima do outro lado, ele novamente passará pelo meio, e retornará para o lado de onde partiu. Só que ele não atingirá a mesma altura de antes. E ele irá ir e voltar, sucessivamente, perdendo altura gradativamente, até que chegará ao meio, e seu movimento cessará.


Uma balança também faz esse movimento de vai e vem antes de atingir sua estabilidade. Ao colocar os pesos dos dois lados, ambos os pratos irão subir e descer. Muitas vezes serão necessários ajustes, retirando e colocando pesos para achar o ponto de equilíbrio. Portanto, tenha paciência, consigo mesmo e com os outros. Erramos por excesso e por falta. Mas é assim mesmo, somos pêndulos e balanças. E um dia chegaremos ao meio.

Juliane Gering

Fonte: Caminhos da Alma

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