quinta-feira, 21 de maio de 2015

Um incidente e um acidente



Grande confeitaria paulista, ao anoitecer. Clientela numerosa.

Quando Olavo Dias, conhecido trabalhador da seara espírita, se aproxima da caixa para efetuar o pagamento da compra ouve a gritaria:

- Ladrão! Ladrão! Pega o ladrão! Pega! Pega!

Junta-se ao guarda robusto balconista e agarram o pobre homem mal vestido que treme ao apresentar o pacote nas mãos.

-Ele roubou um freguês - grita o caixa - triunfante ao segurar a presa.

Quase todos os rostos se voltam para o infeliz.

O Policial providencia em tudo o que o caso lhe sugere, mas Olavo Dias avança e toma a defesa.

- Ele não é ladrão - explica - e não admito qualquer violência.

E no propósito de ajudá-lo, Olavo mente, afirmando:

- É meu empregado e, talvez, retirou o pacote julgando que fosse meu.

Enérgico, toma o embrulho e devolve ao gerente, pede desculpas pelo engano e afasta-se com o desconhecido, dando-lhe o braço, como se o fizesse a um parente, diante do público perplexo.

Dobrando, porém, a primeira esquina, fala-lhe, admoestando:

- Ora essa, meu caro! Sou espírita e um espírita não deve mentir. Entretanto, fui obrigado a isso para defendê-lo.

O interpelado mergulha o rosto nas mãos ossudas e explica em lágrimas:

- Doutor, roubei porque tenho seis filhos com fome, sou doente... não consigo serviço...

- Ok, ok.. - falou Olavo, comovido - não estou aqui para fazê-lo chorar.

Condoído, abriu a carteira e deu-lhe  certa importância em dinheiro e pediu-lhe o endereço.

O infeliz disse chamar-se Noel de Souza e informou a residência nas proximidades da Vila Maria, em modesto barracão.

Olavo Dias prometeu visitá-lo na primeira oportunidade. 

Finda uma semana e ei-lo de automóvel a procurar pela casinha. Depois de algumas buscas localizou-a. Encontrou a senhora Souza e os seis filhinhos esquálidos, mas Noel não estava: saíra para procurar socorro médico.

Olavo, tocado de compaixão, fez o quanto pode pela família sofredora e, ao despedir-se, ouviu a dona da casa dizer-lhe, sob forte emoção:

- Um dia, se Deus quiser, Noel há de retribuir o senhor por tudo o que está fazendo por nós...


Decorridos seis meses, Olavo, certo dia, chega apressado ao aeroporto de outra grande cidade brasileira.

Precisava viajar urgentemente, mas não tem passagem. Arriscar-se-á, no entanto, a comprar na última hora. Dirige-se rápido para o guichê da uma empresa aérea, na expectativa de resolver o problema. O avião logo deverá decolar, mas ainda há tempo... mas, alguém cruza seu caminho. Sente-se abraçado numa explosão de ternura.

Olavo tenta quebrar o impedimento afetivo, mas reconhece Noel de Souza e estaca, surpreendido.

- Você... aqui?

- O amigo está humildemente trajado, mas limpo e alegre.

- Sim, doutor, preciso conversar com o senhor...

- Agora não Noel, falou Olavo, contrariado.

Como se não lhe notasse o azedume, o outro tomou-lhe o braço e arrasta-o docemente para fora da agência de viagens.

- Souza, não me detenha, não me detenha... roga Olavo, inquieto.

- Escute, doutor, preciso lhe agradecer...

E como não lhe pudesse escapar da mão, Olavo escuta-lhe a conversa entediado e impaciente. Noel refere-se à esposa e aos filhos e repete frases de gratidão e carinho.

Depois de alguns minutos, Olavo, revoltado desvencilha-se e abandona-o sem dizer palavra. Mas é tarde... o avião já está taxiando na pista.

Acabrunhado, Olavo, vê, de longe o aparelho na decolagem.

Bastante desapontado, procura Noel de Souza para ouvi-lo com mais atenção, entretanto, por mais minuciosa procura, não mais o encontra.

Daí a quatro horas, recebe trágica notícia.

O avião em que pretendia viajar caíra de grande altura, sem deixar sobreviventes.

Intrigado, regressa a São Paulo e corre a visitar o casebre de Noel. Quer vê-lo, abraçá-lo, comentar o acontecimento.

Mas, no modesto lar de Vila Maria, ficou sabendo que Noel de Souza desencarnara havia dois meses.
Espírito Hilário Silva
Adaptado do Livro "Almas em desfile"
Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira







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